Aprender chinês: cultura da Unidade 1

O diálogo da Unidade 1 leva Bai Xue e Gao Xiaoyu de Pequim a Xangai: uma noite de trem, o metrô da manhã, um trajeto a pé até um restaurante com um nome surpreendente. É a oportunidade de ver como as pessoas realmente se deslocam na China hoje e de corrigir, de passagem, algumas ideias preconcebidas.


1. As estações chinesas e as três famílias de trens

Uma estação como 上海火车站 Shànghǎi huǒchēzhàn, a estação de trem de Xangai, não tem nada a ver com uma estação europeia, nem mesmo com as maiores rodoviárias brasileiras: é uma pequena cidade. Imensos saguões de espera, dezenas de plataformas, restaurantes, lojas e uma multidão permanente a qualquer hora do dia e da noite. Não se entra livremente: a passagem é nominal, é preciso apresentar um documento de identidade (no seu caso, o passaporte) e a bagagem passa pelo raio X, como num aeroporto. Depois, você espera no saguão, e o acesso à plataforma só abre pouco antes da partida. Chegue com antecedência.

Bai Xue e Gao Xiaoyu 坐了一晚上火车 zuò le yì wǎnshang huǒchē: passaram uma noite inteira no trem. As distâncias na China são tamanhas (cerca de 1.500 km entre Pequim e Xangai) que o trem noturno continua sendo uma instituição. Você dorme numa cidade e acorda em outra. Para um brasileiro, é a versão ferroviária do ônibus-leito que sai da rodoviária à noite. Os chineses resumem essa arte de viajar numa expressão consagrada:

A letra do número do trem diz tudo

Este é o ponto realmente útil, e o que os guias de viagem raramente explicam. A rede ferroviária chinesa se divide em três grandes famílias, e a letra colocada antes do número do trem indica imediatamente com qual delas você está lidando:

Família Letra Velocidade O que é
高铁 gāotiě G 300 a 350 km/h a alta velocidade, em linha exclusiva
动车 dòngchē D 200 a 250 km/h a velocidade intermediária, preço menor
普快 pǔkuài K, T 80 a 120 km/h o trem clássico, o dos vagões-leito

高铁 gāotiě é a abreviação de 高速铁路 gāosù tiělù, literalmente "via férrea de alta velocidade" ⟶ a alta velocidade. Você reconhece 铁 tiě, o caractere de 地铁 dìtiě desta Unidade: é o ferro, portanto o trilho. A letra G vem de gāo. Pequim-Xangai em mais ou menos quatro horas e meia.

动车 dòngchē é a abreviação de 动车组 dòngchēzǔ, literalmente "composição de vagões motores" ⟶ a automotriz. Também é um trem moderno e confortável, só que um pouco menos rápido e bem mais barato. Muitos viajantes chineses escolhem o D quando o G só faz ganhar uma hora.

普快 pǔkuài, literalmente "comum-rápido", é a rede antiga, a de antes da alta velocidade: os trens K (快速 kuàisù, rápido) e T (特快 tèkuài, expresso). São eles que circulam à noite e que têm vagões-leito. O nome engana, já que são os mais lentos dos três: o 快 vem de uma época em que esses trens eram de fato a categoria rápida, e o uso conservou a palavra.

Nesses trens noturnos, você reserva ou um 硬卧 yìngwò ("leito duro", seis por compartimento aberto), ou um 软卧 ruǎnwò ("leito macio", quatro por cabine fechada). Os nomes vêm de uma época em que a diferença estava mesmo na dureza do colchão; hoje os dois são confortáveis, e a verdadeira diferença é o número de vizinhos.


2. Metrô ou ônibus?

No diálogo, Xiaoyu decide sem hesitar: 早上公交车人太多。 Zǎoshang gōngjiāochē rén tài duō. "De manhã, há gente demais no ônibus." Ele conhece bem a China: nos horários de pico, o ônibus fica preso no trânsito, enquanto o metrô anda rápido.

O 地铁 dìtiě chinês surpreende todos os viajantes: recente, limpo, com ar-condicionado e com sinalização também no alfabeto latino, o que permite usá-lo mesmo sem falar chinês. O de Xangai é o mais longo do mundo. A passagem custa apenas alguns 元 yuán, e na maioria das vezes se paga com o celular. Um único hábito a adquirir: na entrada das estações, as bolsas passam pelo raio X, como na estação de trem.

O 公交车 gōngjiāochē também não deve ser descartado. É ainda mais barato e mostra a cidade pela superfície. É exatamente o raciocínio de Xiaoyu para a volta: 我们坐公交车去火车站,可以看晚上的上海。 Wǒmen zuò gōngjiāochē qù huǒchēzhàn, kěyǐ kàn wǎnshang de Shànghǎi. De ônibus, vamos poder ver Xangai à noite. Guarde a regra dos dois viajantes: o metrô quando se está com pressa, o ônibus quando se quer ver a cidade.


3. 上海,我来了!: a arte da exclamação

Ao sair do metrô, Bai Xue exclama: 上海,我来了! Shànghǎi, wǒ lái le! "Xangai, aqui estou!" Ela se dirige à cidade como a uma pessoa, e o 了 le final marca a mudança de situação: pronto, cheguei.

Essa construção está em toda parte: é gritada ao chegar a algum lugar, vira legenda de foto de viagem nas redes sociais. Ela diz algo sobre o chinês falado, que gosta da exclamação, da ênfase e de uma certa teatralidade. A imagem de uma Ásia toda contida é um clichê a ser relativizado: no dia a dia, os chineses são expressivos, falam alto, são entusiasmados. (O clichê vem sem dúvida de uma confusão com o Japão, e não ajuda ninguém.)

Para reutilizar: a fórmula funciona com qualquer lugar. 北京,我来了! Běijīng, wǒ lái le! "Pequim, aqui estou!" Para dizer em voz alta ao descer do avião: efeito garantido com seus amigos chineses.


4. Os letreiros que falam

O restaurante da irmã do Xiao Wang se chama 回来吧 Huílai ba: "Volte!" No Brasil, muitos letreiros trazem um nome de pessoa ou de lugar (o Bar do Zé, a Padaria Central). Na China, os comércios gostam de exibir uma mensagem: um voto de felicidade ou de prosperidade, um trocadilho, uma promessa feita ao cliente. Aqui, é um convite direto.

E esse nome é uma pequena joia de gramática, justamente a gramática desta Unidade. É 回来 huílai, voltar vindo para perto de quem fala, e não 回去 huíqù, voltar afastando-se de quem fala: o letreiro fala do ponto de vista do restaurante, que espera a volta do cliente. Quanto ao 吧 ba final, ele suaviza a ordem, transformando-a em sugestão amigável.

Para o viajante, os letreiros são um exercício de chinês em tamanho real: a rua é uma aula de leitura permanente. Com esta Unidade, você já sabe identificar um 饭店 fàndiàn (restaurante), uma 书店 shūdiàn (livraria), um 超市 chāoshì (supermercado) ou uma 水果店 shuǐguǒdiàn (loja de frutas). Levante os olhos: a cidade faz você revisar.


5. O 吧 dos letreiros: quando a partícula vira "bar"

Fiquemos nos letreiros, porque 吧 leva ali uma vida dupla que confunde muitos alunos.

Você o conhece como partícula final, pronunciada ba no tom neutro: ela suaviza uma frase, transformando-a em sugestão ou convite, como em 我们走吧。 Wǒmen zǒu ba. "Vamos." (você a encontrou na Unidade 12 do nível 1), ou no nosso 回来吧.

Mas o mesmo caractere também se pronuncia bā, no primeiro tom, e serve então para transcrever a palavra inglesa bar (a mesma que usamos em português). O chinês, ao contrário de uma ideia preconcebida muito difundida, toma muitas palavras emprestadas de línguas estrangeiras; só que, como não tem alfabeto, ele empresta os sons reciclando caracteres já existentes. Foi assim que 吧 virou um sufixo muito produtivo:

O mecanismo é sempre o mesmo: o primeiro elemento diz o que se consome ou o que se faz ali, e 吧 diz que é um estabelecimento onde a gente se instala. Um 网吧 não é, portanto, um bar com wi-fi, mas sim um lugar aonde se vai para jogar e navegar durante horas, muitas vezes aberto a noite toda.

Essa reciclagem fonética aparece em muitas palavras emprestadas, e você vai encontrar outras ao longo do curso: 咖啡 kāfēi (o café, daqui a três Unidades), e mais tarde 沙发 shāfā (o sofá, do inglês sofa). Esses caracteres não se leem, eles se escutam: procurar um sentido em 沙 "areia" e 发 "enviar" num sofá não leva a lugar nenhum. Um bom reflexo quando uma palavra lhe parecer absurda: pergunte-se se ela não seria simplesmente emprestada.